quarta-feira, 16 de novembro de 2011

A história de uma vaca...

Decidi publicar um pequeno trecho do livro A VIAGEM DO ELEFANTE, de autoria do saudoso José Saramago, com o intuito de lembrar o seu 89º aniversário
.
Aos desacostumados em ler os escritos de Saramago, fica o aviso de que pode ser uma estranha leitura, por dois motivos. Primeiro decorre de o texto manter a ortografia vigente em Portugal, e em segundo lugar por ser estruturado em uma narrativa que relembra um bom e velho contador de histórias.

A história a seguir, foi o mais próximo que consegui na tentativa de registrar a passagem dos meus 25 anos de idade. Espero que ao final da mesma, possa olhar o passado e com todo vigor, ainda experimentar os sentimentos descritos a seguir.
  
“A história de uma vaca, As vacas têm história, Tornou o comandante a perguntar sorrindo, Esta, sim, foram doze dias e doze noites nuns montes da galiza, com frio, e chuva, e gelo, e lama, e pedras como navalhas, e mato como unhas, e breves intervalos de descanso, e mais combates e investidas, e uivos, e mugidos, a história de uma vaca que se perdeu nos campos com a sua cria de leite, e se viu rodeada de lobos durante doze dias e doze noites, e foi obrigada a defender-se e a defender o filho, uma longuíssima batalha, a agonia de viver no liminar da morte, um círculo de dentes, de goelas abertas, as arremetidas bruscas, as cornadas que não podiam falhar, de ter de lutar por si mesma e por um animalzinho que ainda não se podia valer, e também aqueles momentos em que o vitelo procurava as tetas da mãe, e sugava lentamente, enquanto os lobos se aproximavam, de espinhaço raso e orelhas aguçadas. Subhro respirou fundo e prosseguiu, Ao fim dos doze dias a vaca foi encontrada e salva, mais o vitelo, e foram levados em triunfo para a aldeia, porém o conto não vai acabar aqui, continuou por mais dois dias, ao fim dos quais, porque se tinha tornado brava, porque aprendera a defender-se, porque ninguém podia já dominá-la ou sequer aproximar-se dela, a vaca foi morta, mataram-na, não os lobos que em doze dias vencera, mas os mesmos homens que a haviam salvo, talvez o próprio dono, incapaz de compreender que, tendo aprendido a lutar, aquele antes conformado e pacífico animal não poderia parar nunca mais”.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

O que acontece na Universidade de São Paulo?

Por Eduardo Soares de Lara*
“Eu sou a favor de todas as reivindicações deles para coibir a ação truculenta da polícia. Meu filho não fuma maconha, não bebe, o único vício dele é tentar mudar o mundo!” (Mãe de um estudante da USP)

A todo instante, por meio da televisão e dos grandes jornais, chega uma nova informação sobre a efervescência dos estudantes na USP. Informações cuja fonte é a tradicional imprensa brasileira constituída por seus monopólios de comunicação. O conteúdo divulgado é pobre de detalhes e análises coerentes acerca do que ocorre nas dependências da importante Universidade brasileira. Parece-me, em comparação com os manifestantes, que a imprensa encontra-se igualmente perdida.

Humildemente, gostaria de expor algumas reflexões, que dialogam com o atual processo de globalização do capitalismo.  Acredito que o sociólogo Octavio Ianni, de alguma forma sintetiza a idéia central da minha reflexão ao afirmar que: “Desse novo ciclo, tem emergido uma série de controvérsias que abalam profundamente os quadros sociais e mentais de referência de indivíduos e coletividades, em todo o mundo. Está em curso uma ruptura histórica, com sérias implicações teóricas e práticas. Refletir sobre essa ruptura é constatar dilemas e descobrir horizontes que se colocam para indivíduos e coletividades, classes e grupos sociais, nações e nacionalidades, formas de vida e trabalho, realizações e ilusões, em todo mundo.” (1)

Sobre o direito de manifestação

Compreendemos prontamente que o direito de manifestar-se é uma garantia constitucional em nosso país, tanto no sentido individual como coletivamente. Essa noção, que invoca as liberdades dos indivíduos, é conteúdo de inúmeros tratados filosóficos e políticos. Referenciais na maioria das vezes “incontestáveis” da democracia moderna. Não importa qual o conteúdo a ser publicizado, o mesmo sempre encontra respaldo na suposta liberdade de expressão. Porém é obvio que qualquer manifestação pública fica sujeito de reações oriundas do julgamento público.

O Mundo de hoje encontra-se borbulhando de anseios. Vide o que acompanhamos recentemente no Chile, onde os estudantes reivindicam ensino superior público; no Oriente Médio com a “Primavera Árabe”; nos países da Europa, emblematicamente recordo as manifestações na Espanha por democracia real, que agrupou um acampamento entorno da “Praça do Sol”; e nos Estados Unidos com o movimento “Occupy Wal Street”. Esses são exemplos de contestações legítimas de um mundo preocupado com seu futuro coletivo.

As contestações, cujos propósitos visam à emancipação dos indivíduos, é o que efetivamente permite à conquista da liberdade, das transformações sociais e políticas progressistas desejada pela sociedade. São características de um luta que se encontra atualíssima e a mesma esta na ordem do dia, porque corresponde a uma necessidade objetiva da evolução da sociedade.

Nesse contexto, é válido o entendimento de que o tão sonhado “... processo revolucionário não será construído abruptamente. É preciso um atento exame da história e da realidade contemporânea, que mostra que o caminho revolucionário comporta muitas etapas e a construção da nova sociedade será obra ainda de muitas gerações”. (2)

Em especial no movimento estudantil, do qual tive a oportunidade de atuar durante um bom tempo da minha vida, sempre convivi com os radicalismos, em sua maioria, movidos pela cíclica inquietação juvenil. É difícil seu entendimento estando de fora, porém uma coisa é certa, são angustias reprimidas que clamam por sua liberação, e manifestam-se a todo instante artisticamente e politicamente.

Polícia X Universidade

A presença de forças coercitivas no ambiente universitário a todo instante gera atritos e indisposições.

Por dois motivos. O primeiro porque essas forças, no caso da USP a Polícia Militar, são formadas ideologicamente por meio de doutrinas, que condicionam um entendimento de que toda e qualquer contestação fere a estabilidade do Estado, e as mesmas passam a justificar uma necessidade de agir e resguardar a legalidade, combatendo os agitadores políticos. A segunda característica diz respeito à relação conflituosa, cultivada entre estudantes e militares. Basta relembrar do recente período de ditadura militar e os sistemáticos ataques a democracia e as liberdades. Uma história que derramou o sangue de inúmeros estudantes. É preciso a todo instante evidenciar o quanto continua sendo árduo o processo de redemocratização, num país cujas feridas encontra-se ainda abertas e mal resolvidas.

Em síntese, quero dizer que o espaço universitário é composto por seus ritos, símbolos, tradições, e história, que de alguma forma fogem da engessada legalidade, da moral hipócrita e da compreensão das forças de segurança formadas e modernizadas para reprimir. 

A USP X Autonomia

É bem conhecida a história da Universidade de São Paulo. Conceituada internacionalmente, a mesma deve suas origens a um estreito vínculo com a elite paulista.

Verdade que se tornou berço de eminentes homens públicos e intelectuais, porém sempre esteve a favor de um projeto político.

Ainda hoje ela é uma universidade ligada ao governo de São Paulo, financeiramente, administrativamente e politicamente.

“Ainda durante a gestão de José Serra, Grandino Rodas foi escolhido reitor da USP através de um decreto publicado no dia 13 de novembro de 2009. Seu nome era o segundo colocado numa lista de três indicações. Ou seja, Roda não foi eleito pela comunidade acadêmica. A última vez que o governador do Estado impôs um reitor à Universidade – utilizando-se de um dispositivo legal criado no período militar e que está presente na legislação do Estado de São Paulo até hoje – foi durante a gestão do governador biônico Paulo Maluf, que indicou Miguel Reale para assumir a reitoria da USP ente 1969 e 1973”. (3)

Seria de estranhar, se a Universidade de São Paulo não refletisse a opinião, o entendimento e a prática do governo paulista de Geraldo Alckmin frente aos movimentos sociais. Foi assim com na greve dos próprios policiais, dos professores, entre outras. É um governo que não viabiliza o diálogo com os movimentos sociais tradicionais, que nunca suportou qualquer sinal de organização política – seja estudantil, sindical ou partidária – muito menos teria uma atitude diferente com movimentos emergentes, portadores de dinâmicas ainda pouco compreensivas até o presente momento.

O resultado?

Sinto, particularmente, um triste pesar com tudo que o ocorreu e a forma que o tema vem sendo tratado pelo senso comum e a imprensa nacional.

Permaneço veemente contrário a legalização da maconha e qualquer outro ilícito. Porém compartilho do entendimento crítico que a descriminalização do usuário, traria implicações importantes no âmbito da segurança pública, da saúde e justiça.

A todo instante quis refletir acerca de um fato concreto. O fato de que 3 mil estudantes da USP, mobilizados em assembléia, deflagraram uma greve que expressa o sentimento dos estudantes depois da entrada da Tropa de Choque. 3 mil estudantes, que a todo instante recebe o apoio de trabalhadores, intelectuais, outras universidades e setores da sociedade.

Não sei se por conta da minha história no movimento estudantil, mesmo apontando críticas e divergências que sempre tive com determinados setores que compõe o mesmo, mantenho aqui meu incondicional apoio ao movimento rebelde na USP.

Involuntariamente, momentos como esses, servem para trazer a tona uma série de anseios da juventude brasileira.

Ou juntos mudamos o mundo, ou a juventude vai mudar ele sozinho!

*Eduardo Soares de Lara é graduando em ciências sociais pela Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC


Observação:

A histórica assembléia deliberou os seguintes encaminhamentos:
- Greve imediata
-Eixos;
1 – Retirada de todos os processos movidos contra estudantes por motivos políticos!
2 – Fora PM! Pelo fim do convênio da USP com a Secretaria de Segurança Pública.
3 – Liberdade aos presos e nenhuma punição administrativa ou criminal!
4 – Foras Rodas!
5 – Outro projeto de segurança na USP! Que a reitoria se responsabilize por:
a)      Plano de iluminação no campus.
b)      Política preventiva de segurança.
c)       Abertura do campus à população para que tenhamos maior circulação de pessoas;
d)      Abertura de concurso público para outra guarda universitária, que tenha treinamento para prevenção dos problemas de segurança e com efetivo feminino para a segurança da mulher;
e)      Mais circulares;
f)       Circular até o Metrô Butantã;


Referências:
1 – Octavio Ianni. Capitalismo, Violência e Terrorismo. Editora Civilização Brasileira, 2004.
2 – José Reinaldo Carvalho. 7 de novembro, aniversário da Revolução Socialista. <http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=168065&id_secao=9>
3 – Ana Paula Salviatti. A face autoritária do reitor da USP <http://rede.outraspalavras.net/pontodecultura/2011/11/07/a-face-autoritaria-do-reitor-da-usp/>


quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Desertar... nunca!

Quase que esqueço por completo desse pequeno espaço de idéias, mantido unicamente dos sonhos e sentimentos da minha juventude.

O princípio desse espaço foi somar forças com a rede de anônimos que compartilham suas experiências, idéias e sentimentos.

Tal espaço, só faz sentido, se puder expor o verdadeiro sentimento aprisionado no meu peito.

Posso encontrar inúmeros motivos para justificar essa ausência. Porém hoje, não quero justificar nada publicamente. Apenas quero relembrar uma frase de Sartre que merece ocupar as paredes brancas do meu quarto, e quem sabe assim, a cada despertar, alimentar a coragem adormecida dentro de mim.    

“Desertar é negar um mundo e uma época – lutar nas trincheiras é aceitar esta época, suportar seu tempo. O desertor faz apelo ao futuro; por minha parte, quero fazer apelo unicamente ao presente.”

Além disso, quero compartilhar a linda voz portuguesa de Cuca Roseta, interpretando a canção “Quem és tu afinal?”

A canção não saiu da minha cabeça durante os últimos dois dias...

Seus olhos Branco e Cal
Rascunho ou Pintura?
Quem és tu? Afinal?
Destino..? ventura..
De mãos em vão nudez
mm..Deslizar nos dedos
Enleio em timidez
mm..Desposar segredos
Seus olhos verde e cal
Desenho.Tortura!
Quem és tu? Afinal?
Receios! ..mm Ternura..
Baixinho a cada noite
De novo e devagar
És meu ao abraçar-te
Tão meu!...Sonhar!!



domingo, 3 de julho de 2011

O SEGREDO DOS SEUS OLHOS (El Secreto de Sus Ojos, 2009)

O SEGREDO DOS SEUS OLHOS (El Secreto de Sus Ojos, 2009)

Indicado ao o Oscar de melhor produção estrangeira, o filme conta a história de um ex-funcionário público que resolver escrever um livro quando se aposenta. Benjamín Espósito (Ricardo Darín) escolhe pra seu livro o caso criminal que mais marcou a sua carreira no Tribunal Penas de Buenos Aires.

Para ordenar as idéias, ele revê o homicídio que investigou em 1974 e termina repensando as decisões feitas no passado. Nessa busca vai tentar descobrir se consegue encerrar esse caso e alguns capítulos da sua vida.

Espósito terá sempre ao lado a tentação da sua impecável superior Irene Menéndez Hastings (Soledad Villamil, atriz revelação do filme) e a companhia do fiel escudeiro Pablo Sandoval (Guillermo Francella, que garante uma participação dramática de peso, algo fora do comum na sua carreira de comediante). Os acontecimentos, assim como os outros personagens que povoarão a história, são apresentados aos poucos, como se saíssem de um conta-gotas controlado com extrema precisão pelo diretor Juan José Campanella.

Apesar de poder ser enquadrado como filme policial, afinal o elemento central à trama é um crime, há poucos tiros e nenhuma explosão. A tradicional adrenalina das perseguições de carro que se acostumou em ver nos filmes hollywoodianos é muito bem substituída por uma bela seqüência de imagens aéreas de um estádio de futebol lotado em pleno fervor do jogo. Ou seja, tudo redimensionado a escalas mais humanas e realistas.
As idas, vindas e voltas de cortes temporais fazem os paralelos com o passado dos envolvidos e também com a história argentina. Os meandros da justiça e a época da última ditadura no país são tratados de forma econômica e sem demagogia. Mas, por outro lado, às vezes, fica difícil de entender tanta "argentinidade". São várias as referências feitas a ruas, lugares, personalidades e contexto histórico. Um dado importante para acompanhar melhor alguns desenlaces do filme: o crime se passa na época do governo de Isabel Perón e das ações constantes da "Triple A" (Aliança Anticomunista Argentina), grupo de repressão do Estado que recrutou gente da pior espécie, entre oficiais de polícia exonerados por delitos, civis com fichas criminais e matadores de aluguel.
Baseada no livro La pregunta de sus ojos (A pergunta dos seus olhos), de Eduardo Sacheri, a produção argentina e espanhola é um desses poucos casos em que uma obra é superada pela adaptação. Apesar de não ser desconhecido dos leitores argentinos, o romance de Sacheri (que trabalhou com Campanella no roteiro, acompanhou as filmagens e palpitou em certos momentos) com certeza nunca chegou a 18 semanas consecutivas no topo de nenhum ranking, como fez o filme nas bilheterias argentinas. Na sua sexta semana de exibição, O Segredo dos Seus Olhos já era o filme nacional de maior arrecadação na Argentina e hoje é considerado o mais visto dos últimos 35 anos no país.

O orçamento curto (2 milhões de euros) foi bem distribuído entre as sete semanas de filmagens, os atores de primeira e os cenários simples, mas impactantes - como o edifício central dos tribunais e as cafeterias da capital argentina, que não precisam de retoques, além do já mencionado estádio de futebol do time Huracán. A bela fotografia também merece destaque e o enquadramento só peca pela repetição muito constante dos desfoques de primeiro plano. Parece que a verba só não deu conta de um quesito: a maquiagem. Ao longo dos 25 anos que se passam na história, as marcas do tempo ficam meio forçadas.
O desenrolar dos acontecimentos cria um suspense envolvente e o desdobramento dos personagens contribui com boas surpresas, compondo alguns dos segredos que hipnotiza os olhos de quem vê. Em suma, a indicação ao Oscar é merecida. Agora resta saber como acaba a tal história contada por Darín.






AMOR E ÓDIO (La Rafle)

O final de semestre é sempre um momento delicado, que exige uma dedicação sobrenatural na tentativa de entregar nos prazos estabelecidos, alguns trabalhos e avaliações.

Mesmo assim encontrei um pouco de tempo para o cinema. Segue minhas considerações para com três títulos.

AMOR E ÓDIO (La Rafle)

Com o ator Jean Reno, o filme fala sobre o período de ocupação da França por Hitler, e consequentemente sobre a perseguição de judeus em Paris. Os atores são ofuscados por uma série de crianças que protagonizam “pequeninos judeus”, passando por uma das experiências mais deploráveis que a humanidade já conseguiu produzir, a perseguição nazista.

Ambientando no ano de 1942, Joseph com apenas 11 anos, durante uma manhã de junho, deve ir para a escola com uma estrela amarela presa em seu peito. Entre a bondade e o desprezo, a comunidade judaica vivem numa Paris ocupada.

Na manhã de 16 de Julho de 1942, 13.000 Judeus são presos e espremidos dentro do Velódromo D´Hiver em condições desumanas, até serem deslocados para o campo de concentração de Beaune-la-Rolande, localizado na cidade francesa ao sul de Paris, Vichy.

O fato de ser um filme, não impossibilita o fato de que cada personagem desse filme de fato existiu. Foram mulheres, homens e crianças que lutaram por sua liberdade. O filme é aterrorizador, quando ao final nos damos conta que tudo isso aconteceu, existiu e foi encarado com naturalidade por muitos.

Vale apena ver e ter como registro de um dos momentos mais perversos que a humanidade conseguiu criar. Ou melhor... Continua recriando, em outras proporções, porém continua.



quinta-feira, 2 de junho de 2011

Palocci. Ele é a verdadeira crise?

Ontem fui pego de surpresa, nos corredores da Universidade, onde um grupo de colegas debatia questões relacionadas à influência da grande mídia e as recentes acusações que envolvem o Ministro Chefe da Casa Civil, Antonio Palocci.

Longe de querer defender o Ministro Palocci, seu passado e presente, assim como querer justificar alguma ação imoral. Tenho a necessidade de refletir alguns aspectos.

Divulgado pela Folha de S. Paulo, as notícias acusam o ministro de ter seu patrimônio acrescido 20 vezes em quatro anos. Mesmo não fazendo nenhuma acusação direta, a mesma é cheia de insinuações. Seguindo o melhor estilo golpista da imprensa brasileira, outros meios de comunicação somaram-se ao coro, como se todas as reportagens tivessem sido preparadas pelo mesmo editor.

Terça-feira, 17 de maio
Folha: “Comissão de Ética diz que Palocci não relatou bens”
Estadão: “Dilma blinda Palocci e oposição reage com cautela”
Quarta-feira, 18 de maio
Folha: “Ex-ministro vale muito no mercado, diz Palocci”
Estadão: “Cinco ministros de Dilma têm empresas de consultoria”
Quinta-feira, 19 de maio
Folha: “Ação do Planalto barra convocação de Palocci”
Estadão: “Negócio feito por empresa de Palocci é suspeito, diz Coaf”
Sexta-feira, 20 de maio
Folha: “Empresa de Palocci faturou R$ 20 mi no ano da eleição”
Estadão: “Palocci trabalhou para 20 empresas”

Jornais e oposição ao governo aproveitaram-se do caso para criar todo tipo de instabilidade e constrangimento à presidenta Dilma. Criou-se o estopim para que lideranças da oposição passassem a pôr Palocci no “olho do furação”, começando assim mais uma guerra política.

DEM e PPS ingressaram com pedidos de abertura de inquérito na Procuradoria-Geral da República, questionando o faturamento da empresa em seu período de funcionamento, assim como a lista de seus clientes.

Parlamentares do PSDB mobilizaram forças para recolher assinaturas para uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI).

Em diferentes comissões das duas casas do Congresso Nacional, oposicionistas buscaram convocar o Ministro para prestar informações sobre a atuação da consultoria da qual é sócio.

*

Segue trecho de uma reflexão publicada pelo professor Emir Sader, em seu blog:

“As acusações a Palocci coincidiram com essa votação e contribuíram para configurar uma situação de crise política para o governo. Ao deter o cargo mais importante no ministério, centralizando a coordenação política e outras funções anexas, as acusações - no mínimo – afetam duramente a capacidade de coordenação do governo e colocam à prova sua forma de reagir a denúncias – mais além dos objetivos desestabilizadores da mídia opositora – que revelam, pelo menos, comportamentos problemáticos por parte de um ministro importante no governo. Ainda que não se prove ilegalidades, restam sempre questionamentos sobre a ética publica de assessorias enquanto se detêm mandato parlamentar, cargo importante em comissão da Câmara e a eventualidade de informações privilegiadas e influências em setores do governo. A não revelação dos clientes, com a alegação de segredos profissionais, agrava a situação, que no seu conjunto paralisa a capacidade de ação politica do governo, justamente quando ele acumula temas graves na sua agenda – Código Florestal, emissão de MPs, entre outros. Porém, mais grave do que tudo isso, reflete que atitude o governo toma diante de situações que envolvem ética pública e podem definir critérios para todo o mandato.

“A falta de consciência dos problemas acumulados e dos elementos de fraqueza do governo, que permitiram sua irrupção, ou a falta de consciência, com visões redutivas, que não atingem o cerne das questões, é o pior conselheiro. Qualquer atitude que represente esconder a cabeça na areia, como o camelo, é permitir que as dificuldades atuais se perpetuem e os recuos que o governo está dando, permaneçam no tempo, configurando uma correlação de forças desfavorável para governo e o campo popular.”

"O governo Dilma não sairá o mesmo da crise. Ou sairá mais fraco ou mais fortalecido. Como ocorreu em 2005, que foi o marco decisivo no governo Lula. A atitude que o governo tomar diante da crise atual – seja no Código, seja em relação a Palocci – vai definir um estilo de governo, uma forma de encarar os interesses públicos e a forma de enfrentar problemas da ordem da ética pública, que o marcará por todo o mandato.”

“Nunca como agora crise significa oportunidade. Será perdida ou ganha: está nas mãos do governo a decisão.

*

Na mesma semana que os fatos relacionados a Palocci continuam repercutindo, denúncias envolvendo o “líder máximo da oposição ao governo Dilma”, senador do PSDB Aécio Neves, aquele que foi pego “borracho” andando de carro por ai. Aécio é acusado por deputados estaduais de Minas Gerais de esconder bens para não pagar Imposto de Renda. Salário de R$ 10 mil e patrimônio declarado de R$ 600 mil não explicam viagens ao exterior, festas com celebridades, jantares em restaurantes caros e uso de carrões.

A grande questão: é preciso deixar claro o que pode ou não ser feito pelo homem público. Essa é a verdadeira crise. O Brasil, com o governo Lula, deixou de ser um país das oportunidades. Precisamos mobilizar as forças conseqüentes da sociedade para disputar a construção de um Estado eficiente ao mesmo tempo culturalmente mais ético com as grandes questões públicas. 

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Dica de Filme - Ao Sul da Fronteira

Ao Sul da Fronteira, filme lançado em 2010 causou certa expectativa no Brasil, até porque vivíamos a campanha eleitoral que culminou na eleição da primeira mulher presidenta do país.

Acredito que este filme deve ser enquadrado na categoria de essencial, na tentativa de elucidar as alternativas de esquerda, presente em nosso continente. 

Dirigido por Oliver Stone, a película não deixa de ser um documentário que retrata sua viagem por sete países da América Latina, em uma tentativa de compreender o fenômeno que os levou a ter governos de esquerda na primeira década do século XXI.

Através de conversas com Hugo Chávez (Venezuela), Cristina Kirchner (Argentina), Evo Morales (Bolívia), Luiz Inácio Lula da Silva (Brasil), Fernando Lugo (Paraguai), Rafael Correa (Equador) e Raul Castro (Cuba), é analisado o modo como a mídia acompanha cada governo e o maneira como lidam com os Estados Unidos e órgãos mundiais como o FMI.

Oliver Stone (Nova Iorque, 15 de setembro de 1946), que também serviu na guerra do Vietnã e ganhou a “Estrela de Bronze de Honra ao Mérito” ganhou dois Oscar de melhor diretor com os filmes Platoon e Born on the Fourth of July (Nascido em quatro de julho).

Entre outros de seus filmes está o recém lançado “Wall Street: Money Never Sleeps” (Wall Street – O dinheiro nunca dorme. 

O filme carrega uma leve semelhança com o documentário à “Revolução não será televisionada” e os filmes de autoria do diretor Michel Moore, mesmo assim é esclarecedor, inteligente e original.