segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Sobre os impostos no Brasil:

1) Todas as vezes em que se lançar à mesa uma proposta de políticas públicas avançadas, demandando redistribuição de riquezas, algum “especialista” objetará: “não há recursos para isso no Orçamento; seria preciso elevar ainda mais a carga tributária”. 

2) A ideia será, então, esquecida, porque a sociedade brasileira está subjugada por um tabu: afirma-se que somos “o país com impostos mais altos do mundo”. Sustenta-se que criar novos tributos é oprimir a sociedade. Impede-se, deste modo, que avancemos para uma Reforma Tributária.

3) ... o problema da carga tributária brasileira não está em ser “a mais alta do mundo” (uma grossa mentira), mas em estar, seguramente, entre as mais injustas do planeta.
4) Os grandes grupos econômicos e os mais ricos usam seu poder político para criar leis que os isentam de impostos — despejados sobre as costas dos assalariados e da classe média.

http://www.cartacapital.com.br/blogs/outras-palavras/um-mito-e-algumas-verdades-sobre-os-tributos-no-brasil-5576.html 

domingo, 12 de outubro de 2014

As interpretações econômicas no centro do debate (parte I)

Muita gente têm dificuldades de acompanhar as propostas econômicas, apresentadas nessas eleições.
Acho que um bom exercício, seria dedicar um tempo e assistir esse programa, exibido na Globo News.
Miriam Leitão, a jornalista mais pessimista do Brasil, entrevista os representantes da área econômica de Aécio (Arminio Fraga) e Dilma (Guido Mantega).
Observações:
1)      Arminio Fraga é um “bem sucedido” carreirista de grandes grupos internacionais de investimento. Mantega, acumula uma vida pública dedicada ao ensino, a pesquisa e reflexião sobre os problemas econômicos brasileiros.
2)      Acho interessante comparar o legado de Arminio e Mantega nos respectivos governos FHC e Lula/Dilma.
Notem que Arminio descorda sobre o impacto da crise econômica iniciada em 2008. Sinceramente, acho que ele vive no mundo da lua.


Foram sair do face.... deu “M”


Em junho de 2013, vimos inúmeros brasileiros saírem as ruas. Inicialmente, pensamos se tratar de um movimento de consciência avançada.
A realidade mostrou que em nenhum momento as ruas queriam reinventar a democracia, criar novas instituições, garantir o acesso público à informação, e muito menos lutavam por uma ampla e efetiva participação cidadã. O “movimento de massas” do ano passado criticou limitadamente “essa” democracia, “esses” partidos políticos, e “esses” governos que ai estão.
O resultado?
1)      O Congresso eleito para a legislatura 2015 será um dos mais conservadores, em relação a 1964.
2)      As pessoas não sabem o que fazem as instituições democráticas, e se você não tem esse domínio, o resultado é trágico.
3)      Cresceu o número de militares, religiosos e ruralistas eleitos.
4)      Mais conservador, o Congresso deve emperrar as pautas mais liberais.

O processo eleitoral ainda não chegou ao seu fim. É tarefa de primeira ordem reeleger Dilma. Organizar a luta em contraponto ao conservadorismo no congresso nacional.


terça-feira, 23 de setembro de 2014

Anarquistas graças a Deus...

Um dos escritores fundamentais em minha formação, sem dúvida é Jorge Amado. Pouco depois de seu falecimento, a figura de sua companheira Zélia Gattai, também escritora, despertou minha curiosidade.
Zélia foi a ocupante da cadeira nº. 23, na sucessão de Amado, e nesse momento descobri a vasta obra da escritora. Um título de imediato destacou-se, era Anarquistas Graças a Deus.
Narrativa agradável, impecável nos detalhes e possuidora de uma rica memória muito além da vida da família Gattai, estende-se para os imigrantes italianos, espanhóis, portugueses e árabes do início do século XX. Recupera a história de uma São Paulo e de um povo que ainda caminhava tranquilamente nas ruas. Cidade que já apresentava os contrastes sociais perversos da sociedade brasileira, e que agitava o sangue quente dos italianos anarquistas. O leitor facilmente descobre tratar-se de um memorialista de mão cheia.
Ao fim do livro, da mesma forma que Jorge Amado descreveu: "A vida explode e se afirma em cada página (...) ele me deu infância e adolescência, a família e os amigos, as lágrimas e o riso, a têmpera daquela menina (...)".
Foi intenso viver as histórias da família de seu Ernesto Gattai e seus companheiros. Termino o livro com o sentimento de que também morei na Alameda Santos, nº. 8, no bairro da Consolação, em São Paulo.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Ponderações sobre a aliança PCdoB/PSD

Com o aproximar das eleições gerais em outubro, os partidos brasileiros reúnem-se para definir seus candidatos, táticas eleitorais, programas e até mesmo suas alianças. Não foi diferente com o PCdoB-SC.

A avaliação da direção estadual do partido, analisou o cenário eleitoral e optou por uma aliança com o PSD do governador Raimundo Colombo, decisão que tem por objetivo exclusivo alcançar uma vaga de deputado federal.

O constrangimento público é sentido dentro e fora do partido, e acredito que o momento tornou-se o ápice de uma crise que se arrasta por alguns anos em Santa Catarina.

A crise dentro de um partido, do tipo Comunista, deve servir para avaliar os conceitos e educar seus militantes. E é por isso, que NÃO vou aderir ao processo de desfiliação. Eu fico, porque esse é o partido político que acolheu os melhores momentos da minha vida. É o partido político que dedico 10 anos consecutivos da minha energia, sonho, e militância. E nesse momento difícil, é que os comunistas precisam buscar a unidade e vencer juntos as adversidades de um sistema político tão contraditório.

Na minha opinião o PCdoB em Santa Catarina, teve sempre todas as condições políticas para crescer em número e qualidade. Porém, nunca soube aproveitar plenamente sua inserção nos movimentos sociais e abrir espaço para uma atuação enérgica no legislativo. Pelo contrário. Nosso partido definhou. Retrocedeu, e tornou-se “mais um” no meio de tantos outros.

É preciso olhar para o partido e avaliar nossa atuação, e trabalhar com os números reais da matemática política. Política se faz com força, e se o partido não tem essa força, não deve e não precisa escolher o caminho mais fácil para alcançar os êxitos eleitorais.

O partido precisa compreender os fenômenos internos que afastaram e continua afastando importantes nomes e lideranças. Compreender os fenômenos que excluí da vida partidária históricos camaradas de luta.
Sem visões idealistas da política, defendo e vejo com bons olhos a vinda do PSD para o campo do projeto Dilma. Porém até mesmo esse apoio, precisa ser problematizado. O que motiva essa declaração de votos em Dilma? Um partido que tem no seu DNA, nomes que sempre espumaram ao falar de Lula e do PT. Será que o governo Dilma representa as opiniões políticas desses sujeitos? Se a resposta for sim, então precisamos reorientar esse governo que representa o que de mais avançado construímos na história política nacional e deve ser entendido como um patrimônio do povo brasileiro.

No vale tudo da política, os comunistas não podem ser regidos por essa lógica política incoerente. É preciso reafirmar o que faz o PCdoB ser diferente dos outros partidos. Reafirmar que somos COMUNISTAS, e que defendemos uma transformação social radical (obviamente sem sectarismos e dogmatismos tão presente em outros setores da esquerda).

Desejo que o Partido Comunista do Brasil em Santa Catarina tenha vida longa e que no decorrer desse processo possamos restabelecer nossos princípios indiscutíveis.

Nesse sentido, deixo claro que NÃO apoiarei o candidato Raimundo Colombo (PSD).

Nessas eleições estarei nas ruas, levando bem alto a bandeira vermelha que carrega a esperança dos trabalhadores do campo e da cidade. Estarei outra vez construindo meu partido, organizando nossas lutas e defendendo a reforma política.


Abraços.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Ao longo dessas manifestações, procurei não emitir nenhuma opinião pessoal, até porque não conseguia fazer uma análise um pouco mais crítica do momento. Acredito que o fato de viver essas manifestações intensamente, estando no olho do furacão, às vezes impede formar uma análise do todo.

Porém ontem, tive a oportunidade de participar de um debate sobre o tema, e fiz minhas primeiras conclusões sobre a questão. Nesse sentido, vou publicar alguns dos meus apontamentos em tópicos, com o intuito de registrar esse momento, como tenho feito desde 2010 em um despretensioso blog http://eduardosoaresdelara.blogspot.com.br/ .  

Da natureza das manifestações globais
·      Desde 2007 (início da crise financeira), até o presente momento de 2013, a presença de uma massa popular nas ruas das principais cidades do mundo é inegável. Os fatores são diversos, porém é forte o conteúdo crítico em torno da crise da representação e da profunda crise financeira.
·     O que podemos ver no restante do mundo, é uma pauta que pede muito além de melhorias sociais: porém basicamente concentra-se em garantir direitos e democracia real (Europa em crise), contra o sistema financeiro e por democracia real (EUA em crise), e uma ocidentalização da política no oriente (Mais democracia e o fim de totalitarismos, porém com grande cunho anti-imperialista).
·   São manifestações, muitas vezes de cunho emancipatório e anticapitalista, de crítica ao sistema hegemônico e que também levanta importantes questionamentos ambientais.
·    Também não podemos esquecer que na América Latina o povo está há muito tempo nas ruas. Nesse sentindo, eu identifico na AL um promissor laboratório de novas formas de governo, que vem trabalhando pautas nacionais profundas, caracterizadas por um promissor embate ideológico. Nosso continente é nesse exato momento um grandioso laboratório político.

 Da natureza das manifestações nacionais
·         A internet criou uma identificação global. Criou aquilo que o sociólogo brasileiro Octavio Ianni chamava de sociedade civil global.
·         Podemos dizer, em comparação com a Europa e os EUA, que enquanto eles lutam por garantir direitos, aqui queremos a radical ampliação de direitos que ainda não conquistamos.
·         Porém é inegável o conteúdo vazio de alguns de nossas pautas. Não digo ilegítimas, digo vazias no sentido porque em grande parte são moralistas. Acho que nesse momento, todo debate em torno de um estado ideal, suprime a necessidade de fazer uma profunda reflexão acerca do estado real.
·         Existe uma trama nesse debate moralista. Querem fazer um profundo debate sobre a questão da corrupção e sua institucionalização no sistema político, ou querem debater uma questão específica, como por exemplo, o mensalão? Se for isso é preciso ser sincero e reconhecer que o julgamento do Mensalão envolve uma série de falhas, duramente criticadas por juristas respeitados no Brasil e no exterior. Esse caso específico foi um exemplo de falta de imparcialidade do judiciário brasileiro, com direito a sms dos ministros do supremo comentando sobre o caso. O nosso judiciário é uma peça fraca! Ele inocenta o Collor alegando que as provas foram adquiridas pela polícia de maneira ilegal, e condena outros por falta de provas. Reforma do judiciário, já!
·         Vivemos em uma república, constituída por três poderes. Porém ficou claro o esforço de focar e direcionar todas as criticas na presidenta Dilma.
·         Isso ficou evidente com a reação da mídia e sua falta de legitimidade com o povo, que nas manifestações gritava palavras de ordem a todas grandes emissoras. O povo começou a entender que a mídia é um quarto poder da república, como já afirmava o escritor Lima Barreto.
·         Acredito que nossas manifestações foram infladas por uma geração de jovens sem muita clareza história do desenvolvimento do Brasil. Diferente de outras gerações que foram as ruas para defender criação da Petrobras, pedir as reformas de base, derrubar a ditadura, e garantir o processo democrático. Porém, devemos achar positivas todas essas manifestações, foram ótimas!!!! Agora temos um movimento político em disputa, restando seguir em frente para o segundo ciclo das manifestações.
3)      Considerações sobre o ataque conservador
·         Foi inegável, e ao mesmo tempo assustador a presença de movimentos a favor da ditadura, atacando aos partidos políticos e os princípios democráticos.
·         Foi inegável que todo o lixo preconceituoso da sociedade brasileira também saiu às ruas, contra as políticas afirmativas e todos os avanços sociais que o governo brasileiro promoveu na tentativa de diminuir as desigualdades regionais e sociais.
·         Em relação ao medo de um golpe, esse sentimento não pode ser considerado paranoia, tendo em vista o que a América Latina viu recentemente. Nesse caso basta apenas citar o caso de Honduras e do Paraguai.
4)      A preparação para o segundo ciclo de manifestações.
·         Acredito que agora haverá uma dissolução do movimento espontâneo de massas para o surgimento de um novo ciclo de manifestações. Agora elas serão guiadas por pautas mais específicas e certamente capitalizadas por movimentos sociais.

·         Com o pronunciamento da presidenta Dilma, foi colocada uma nova agenda política no país. Cabe agora a nossa sensibilidade e protagonismo em atuar intensamente para vencer essa agenda e realizar as profundas reformas democráticas que o país e nossa geração exigem.

domingo, 24 de março de 2013

Quem tem medo da CPI em Blumenau?




por Eduardo Soares de Lara

Blumenau reacendeu essa semana, o debate político em torno das denúncias que vão ao encontro do ex-prefeito João Paulo Kleinübing (atual diretor presidente do BADESC !!!!). Uma solicitação de CPI, proposta pelo vereador Jefferson Forest (PT), visa apurar uma série de irregularidades e denúncias de desvio de recursos, em obras realizadas por meio de convênio com o BADESC (Agência de Fomentos do Estado de Santa Catarina). Infelizmente, a proposta de CPI, foi acatada de imediato por apenas 3 vereadores, no global de 15.

Já se esperava que contrários à proposta ficassem os vereadores cassados em primeira instância (!!??), por crime denunciado a partir de gravações feitas pela investigação Tapete Negro.     
Nesse debate surgem duas questões que motivam esse texto de opinião. A primeira de que uma CPI interfere os trabalhos do Ministério Público, seguido da compreensão de que a CPI constitui um palanque político.

Alguém realmente acredita que uma CPI interfere no trabalho do Ministério Público? É tão óbvio que são dois poderes distintos, com atribuições e funções distintas. E já que MP e Câmara de Vereadores de Blumenau, não tem nada em comum, ao menos duas investigações correndo paralelamente ajudariam a apontar possíveis lacunas. Inclusive ajudaria a opinião pública na busca por respostas, já que a característica do MP é ser recatado na apuração dos fatos.

Aos que advogam a tese de que a CPI significa constituir um palanque político, só tenho que dizer que sinto muito! O legislativo é um palco político. É um fórum permanente de disputa política por natureza. E o instrumento da CPI, de acordo com a literatura recorrente sobre o tema, é categórico em dizer que esse é um instrumento que nasce do clamor do povo. Clamor que exige uma investigação para apurar e depois, se necessário, punir desmandos e desvios.

Clamor do povo é parte do princípio institucional da CPI, ainda mais no episódio que presenciamos em nossa cidade, que se encontra longe de ser um caso in abstracto.

O Blumenauense precisa entender que, ao longo da história da cidade, cada governo teve seu lado positivo e negativo. É preciso permitir o acesso a informações de cada gestão, para que a sociedade faça seu julgamento, sua escolha e decisão política.

A proposta do vereador Jefferson Forest vem ao encontro de aperfeiçoar a administração pública. Mostrar as falhas, os defeitos, os interesses obscuros que infelizmente conduzem a política durante a última administração.

A política em nossa cidade precisa ser feita com teto de vidro. Sem medo da verdade e das cobranças.

Eduardo Soares de Lara é graduando em Ciências Sociais pela UFSC  

segunda-feira, 18 de março de 2013

Um novo Papa e as velhas ideias sobre o mundo




Por Eduardo Soares de Lara

Recentemente o brasileiro foi tomando pelo desejo de conversar sobre três assuntos: política (falecimento do presidente Hugo Chávez), religião (o novo Papa e Marcos Feliciano presidente da CDH) e futebol (o título de vice do Vasco da Gama). O que na sabedoria popular, significa grandes chances de perder bons amigos.

Deixo de lado o futebol e também não pretendo trazer nenhuma nova consideração sobre a Venezuela e seu líder.  Proponho-me a fazer algumas considerações sobre a dimensão da religião em nosso país, quando se ventilou a chegada de um brasileiro ao posto de Papa ao mesmo tempo em que a câmara de deputados elegeu um fervoroso religioso ao posto de presidente da Comissão de Direitos Humanos. Sendo assim, a intenção desse despretensioso artigo de opinião é trazer a tona elementos que evidenciam essa tensão crescente, entre o papel da religião no debate público. Existirá uma forma de convivência entre a opinião laica e religiosa na arena do Estado? Como o brasileiro vai se comportar diante desse fenômeno de polarização?

A visão religiosa e o pensamento racionalista moderno vivem em estado de tensão. Tal perspectiva traz à memória o professor (teólogo e político) norueguês Berge Furre, que deixou de estudar o MST (considerado um movimento de proporções espetaculares) quando percebeu o fenômeno religioso das ondas carismáticas no Brasil - em especial a Igreja Universal do Reino de Deus. Sua preocupação, como estudioso, era entender como seria possível acomodar tantas religiões no país. Religiões que ultrapassam as esferas da fé e da moral, atuando no terreno da disputa política.

Sabemos, por meio dos vestígios arqueológicos, que a religião, em suas inúmeras expressões, está presente em todas as sociedades de que se têm notícias. Tendo exercido forte autoridade sobre a vida, influenciando nossa forma de perceber o mundo. Diante dessa conhecida diversidade e historicidade das concepções e da crescente secularização das visões de mundo (processo por meio do qual a religião perde sua influência sobre as diversas esferas da vida social), surpreende o fato de que as religiões conseguem, ainda, manter-se convictas da validade de suas crenças, doutrinas e rituais.

O entendimento de Feuerbach, em seu, The Essence of Christianity (1957), é de que a religião consiste em ideias e valores produzidos por seres humanos no decorrer de seu desenvolvimento cultural, equivocadamente projetado nas forças divinas ou nos deuses. Não tendo uma compreensão plena de sua própria história, os indivíduos continuam atribuindo valores e normas, gerados socialmente, às atividades dos deuses. Como lembra Giddens (2010), o filósofo alemão Feuerbach, conhecido por sua teologia humanista, sustenta que diante dessa cegueira, estaremos condenados a sermos prisioneiros das forças da história que não conseguimos controlar. Assim, ideias e valores humanamente criados, acabam sendo vistos como produto de seres alienados ou independentes.

Karl Marx, apoiado na discussão anterior, entendia a religião como o “coração de um mundo sem coração”, um refúgio da dureza da realidade cotidiana (MARX, 2005). A religião muitas vezes desvia a atenção das desigualdades e das injustiças encontradas nesse mundo, em razão da promessa do que virá no próximo. Por possuir um forte elemento ideológico, as crenças e seus valores muitas vezes serviram, e servem, para justificar desigualdades em termos de riqueza e poder.

Um dos maiores estudiosos sobre religião, Max Weber, contrastando com Marx em certo sentido, argumentava que a religião não é necessariamente uma força conservadora. Ao contrário, movimentos inspirados na religião muitas vezes geram transformações sociais impressionantes. Weber, por meio da sociologia, propôs-se a estudar exclusivamente o comportamento religioso. Sua sociologia da religião não trata de especular sobre o valor respectivo dos dogmas, das teologias concorrentes ou das filosofias religiosas, nem tampouco sobre a legitimidade da crença numa outra vida, mas, sim, estudar o comportamento religioso como uma atividade humana. Weber, tampouco pretendia adotar uma posição positivista, que teria por base a negação e o desprezo da religião, mas de compreender qual a influência do comportamento religioso sobre atividades como ética, econômica, política ou artística (FREUD, 2010).

Não é de hoje que percebemos claramente os conflitos nascidos da heterogeneidade dos valores que cada religião pretende servir. Sendo assim, é preciso recordar que o debate entre Estado Laico e religião é bastante antigo e necessitaria ser historicamente localizado.

Nesse sentido, chamo atenção de um texto de autoria do filósofo alemão Jürgen Habermas (Fundamentos prepolíticos del estado democrático de derecho?), que dialoga diretamente com o então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, do Vaticano, Joseph Ratzinger, e cuja leitura tornou-se oportuna, e discute justamente como deveriam ser as relações entre cidadãos religiosos e seculares.

Cada religião é em sua origem uma “imagem do mundo”, também no sentido de que reclama ser a autoridade. Com a ideia de um mundo moderno secularizado, é preciso entender que a consciência religiosa tem passado por um processo de adaptação. Isso fica evidente quando a Igreja Católica é questionada e tende a revisar alguns de seus posicionamentos. Todas as religiões devem renunciar a pretensão de deter o monopólio interpretativo da vida, na medida em que a secularização do conhecimento avança.

Se como Habermas acredita, a sociedade pós-secular que se avizinha não será apenas aquela que aceita a presença das religiões e reconhecem suas funções sociais positivas, mas é aquela que capaz de superar a teologia moderna e seu evolucionismo simplista. Diante de um novo papa, ou da presença de religiosos participando da vida democrática do país, precede a necessidade destes superarem as velhas ideias sobre o mundo.

Eduardo Soares de Lara é graduando em Ciências Sociais pela UFSC – Universidade Federal de Santa Catarina.

Referência Bibliográfica

FEUERBACH, Ludwig. A Essência do cristianismo (1957).

FREUND, Julien. Sociologia de Max Weber; tradução de Luís Claudio de Castro e Costa – 5. ed. – Rio de Janeiro : Forense Universitária, 2010. 

GIDDENS, Anthony. Sociologia; tradução Sandra Regina Netz – 4. ed. – Porto Alegre : Artmed, 2005.

HABERMAS, Jürgen e RATZINGER, Joseph in Dialética da secularização: sobre razão e religião.

MARX, Karl. Crítica da filosofia do direito de Hegel. Boitempo editorial (2005).

quarta-feira, 6 de março de 2013

"Honor y gloria a Hugo Chávez. Que viva por siempre"



Desde o ano passado deixei de lado esse espaço de reflexão. Com tristeza e pesar retomo ele na tentativa de prestar uma pequena homenagem a uma das figuras fundamentais em minha formação política.


Lembrei de um discurso de Fidel Castro, em 1999, proferido na universidade central de venezuela, quando "Un nuevo y joven Presidente, tras espectacular victoria política y apoyado por un mar de pueblo, había tomado posesión de su cargo apenas 24 horas antes".

Como sempre, o pensamento de Fidel faz sentido... Hugo Chavez ajudou a consolidar essa perspectiva. 
Nossa América Latina com todas suas diferenças, continua promovendo uma experiência única. É preciso unidade, é preciso força, é preciso continuar nossa luta em defesa do socialismo e das ideias libertárias...

"Somos un montón de países con intereses comunes, ansias de progreso y desarrollo; somos inmensa mayoría en casi todas las instituciones internacionales, y tengan la seguridad de que se avanza en la toma de conciencia sobre el destino que nos están reservado. Hay que trabajar, persuadir, luchar y perseverar. Jamás desalentarse" (Fidel).



"Una revolución sólo puede ser hija de la cultura y las ideas" (Fidel)

Chávez foi uma alternativa e uma das experiências mais exitosas na luta anticapitalista do século XXI e tenho certeza, que sem a presença física dele, sua energia e convicção continua influenciando poderosamente nossa luta.  

Tudo isso leva a refletir sobre as perguntas propostas por Harvey, em seu livro O enigma do capital: "Então, onde devemos começar nosso movimento revolucionário anticapitalista? Nas concepções mentais? Nas relações com a natureza? No cotidiano e nas práticas reprodutivas? Nas relações sociais? Nas tecnologias e formas organizacionais? Nos processos de trabalho? Na tomada e transformação revolucionária das instituições?" ... "A revolução tem de ser um movimento em todos os sentidos da palavra. Se não puder se mover dentro, além e através das diferentes esferas, acabará não indo a lugar nenhum".

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

novidades...

Ainda nesse mês, pretendo realizar o lançamento do meu blog, eduardosoaresdelara.com

O blog que está no ar desde setembro de 2010 terá seu visual alterado, facilitando a interação com novos recursos de mídia digital. Além disso, o mesmo será atualizado com maior freqüência, mantendo conteúdo relacionado com as ciências sociais, produção acadêmica variada, notícias, opinião, filmes, literatura, etc...

A idéia é consolidar esse espaço, mesmo que virtual, na luta de idéias e na construção do novo homem e do novo mundo!

sábado, 31 de dezembro de 2011

um 2012 de muita indignação...

É interessante a formação dessa unidade mundial entorno do novo ano que se aproxima.

Ao primeiro dia do ano, demos o nome de “dia internacional da paz”. Uma onda de humanidade toma conta dos mais de 7 bilhões de indivíduos por todos os cantos do planeta.

As manifestações são legítimas, vislumbrando prosperidade, sorte, uma vida digna e rica, seja espiritualmente ou materialmente.

Ao que tudo indica, o novo surge acompanhado de um pouco do mesmo: agressões imperialistas, capital financeiro predominando nas relações de poder como nunca na história da humanidade, o meio ambiente dando sinais de esgotamento, pobreza e miséria extrema concentradas na África, nas grandes cidades, etc.

Em 2011 muitos foram os que perceberam o quanto é injustificável que no século 21, com tanta tecnologia e conhecimento, a vida de milhares de pessoas continuasse ainda desumana e precária, que a riqueza que possibilitaria o bem estar social permanece concentrada, nas mãos de menos de 1% da população que detém o poder real.

Certamente foram indagações que permitiram tornar perceptível às insuficiências do “regime democrático”.

Contrários a essa estrutura estabelecida algumas mulheres e homens ousaram se levantar em uma onda de indignação percorreu mundo árabe, criou raízes na Europa em crise, e chegou à América.

Os meus sinceros votos de ano novo são para todos os #indignados que lutam arduamente ao longo dos anos por uma democracia real.  

“O primeiro passo para a mudança é não aceitar ou se resignar diante de um estado de coisas que está longe de ser natural”. 

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

A história de uma vaca...

Decidi publicar um pequeno trecho do livro A VIAGEM DO ELEFANTE, de autoria do saudoso José Saramago, com o intuito de lembrar o seu 89º aniversário
.
Aos desacostumados em ler os escritos de Saramago, fica o aviso de que pode ser uma estranha leitura, por dois motivos. Primeiro decorre de o texto manter a ortografia vigente em Portugal, e em segundo lugar por ser estruturado em uma narrativa que relembra um bom e velho contador de histórias.

A história a seguir, foi o mais próximo que consegui na tentativa de registrar a passagem dos meus 25 anos de idade. Espero que ao final da mesma, possa olhar o passado e com todo vigor, ainda experimentar os sentimentos descritos a seguir.
  
“A história de uma vaca, As vacas têm história, Tornou o comandante a perguntar sorrindo, Esta, sim, foram doze dias e doze noites nuns montes da galiza, com frio, e chuva, e gelo, e lama, e pedras como navalhas, e mato como unhas, e breves intervalos de descanso, e mais combates e investidas, e uivos, e mugidos, a história de uma vaca que se perdeu nos campos com a sua cria de leite, e se viu rodeada de lobos durante doze dias e doze noites, e foi obrigada a defender-se e a defender o filho, uma longuíssima batalha, a agonia de viver no liminar da morte, um círculo de dentes, de goelas abertas, as arremetidas bruscas, as cornadas que não podiam falhar, de ter de lutar por si mesma e por um animalzinho que ainda não se podia valer, e também aqueles momentos em que o vitelo procurava as tetas da mãe, e sugava lentamente, enquanto os lobos se aproximavam, de espinhaço raso e orelhas aguçadas. Subhro respirou fundo e prosseguiu, Ao fim dos doze dias a vaca foi encontrada e salva, mais o vitelo, e foram levados em triunfo para a aldeia, porém o conto não vai acabar aqui, continuou por mais dois dias, ao fim dos quais, porque se tinha tornado brava, porque aprendera a defender-se, porque ninguém podia já dominá-la ou sequer aproximar-se dela, a vaca foi morta, mataram-na, não os lobos que em doze dias vencera, mas os mesmos homens que a haviam salvo, talvez o próprio dono, incapaz de compreender que, tendo aprendido a lutar, aquele antes conformado e pacífico animal não poderia parar nunca mais”.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

O que acontece na Universidade de São Paulo?

Por Eduardo Soares de Lara*
“Eu sou a favor de todas as reivindicações deles para coibir a ação truculenta da polícia. Meu filho não fuma maconha, não bebe, o único vício dele é tentar mudar o mundo!” (Mãe de um estudante da USP)

A todo instante, por meio da televisão e dos grandes jornais, chega uma nova informação sobre a efervescência dos estudantes na USP. Informações cuja fonte é a tradicional imprensa brasileira constituída por seus monopólios de comunicação. O conteúdo divulgado é pobre de detalhes e análises coerentes acerca do que ocorre nas dependências da importante Universidade brasileira. Parece-me, em comparação com os manifestantes, que a imprensa encontra-se igualmente perdida.

Humildemente, gostaria de expor algumas reflexões, que dialogam com o atual processo de globalização do capitalismo.  Acredito que o sociólogo Octavio Ianni, de alguma forma sintetiza a idéia central da minha reflexão ao afirmar que: “Desse novo ciclo, tem emergido uma série de controvérsias que abalam profundamente os quadros sociais e mentais de referência de indivíduos e coletividades, em todo o mundo. Está em curso uma ruptura histórica, com sérias implicações teóricas e práticas. Refletir sobre essa ruptura é constatar dilemas e descobrir horizontes que se colocam para indivíduos e coletividades, classes e grupos sociais, nações e nacionalidades, formas de vida e trabalho, realizações e ilusões, em todo mundo.” (1)

Sobre o direito de manifestação

Compreendemos prontamente que o direito de manifestar-se é uma garantia constitucional em nosso país, tanto no sentido individual como coletivamente. Essa noção, que invoca as liberdades dos indivíduos, é conteúdo de inúmeros tratados filosóficos e políticos. Referenciais na maioria das vezes “incontestáveis” da democracia moderna. Não importa qual o conteúdo a ser publicizado, o mesmo sempre encontra respaldo na suposta liberdade de expressão. Porém é obvio que qualquer manifestação pública fica sujeito de reações oriundas do julgamento público.

O Mundo de hoje encontra-se borbulhando de anseios. Vide o que acompanhamos recentemente no Chile, onde os estudantes reivindicam ensino superior público; no Oriente Médio com a “Primavera Árabe”; nos países da Europa, emblematicamente recordo as manifestações na Espanha por democracia real, que agrupou um acampamento entorno da “Praça do Sol”; e nos Estados Unidos com o movimento “Occupy Wal Street”. Esses são exemplos de contestações legítimas de um mundo preocupado com seu futuro coletivo.

As contestações, cujos propósitos visam à emancipação dos indivíduos, é o que efetivamente permite à conquista da liberdade, das transformações sociais e políticas progressistas desejada pela sociedade. São características de um luta que se encontra atualíssima e a mesma esta na ordem do dia, porque corresponde a uma necessidade objetiva da evolução da sociedade.

Nesse contexto, é válido o entendimento de que o tão sonhado “... processo revolucionário não será construído abruptamente. É preciso um atento exame da história e da realidade contemporânea, que mostra que o caminho revolucionário comporta muitas etapas e a construção da nova sociedade será obra ainda de muitas gerações”. (2)

Em especial no movimento estudantil, do qual tive a oportunidade de atuar durante um bom tempo da minha vida, sempre convivi com os radicalismos, em sua maioria, movidos pela cíclica inquietação juvenil. É difícil seu entendimento estando de fora, porém uma coisa é certa, são angustias reprimidas que clamam por sua liberação, e manifestam-se a todo instante artisticamente e politicamente.

Polícia X Universidade

A presença de forças coercitivas no ambiente universitário a todo instante gera atritos e indisposições.

Por dois motivos. O primeiro porque essas forças, no caso da USP a Polícia Militar, são formadas ideologicamente por meio de doutrinas, que condicionam um entendimento de que toda e qualquer contestação fere a estabilidade do Estado, e as mesmas passam a justificar uma necessidade de agir e resguardar a legalidade, combatendo os agitadores políticos. A segunda característica diz respeito à relação conflituosa, cultivada entre estudantes e militares. Basta relembrar do recente período de ditadura militar e os sistemáticos ataques a democracia e as liberdades. Uma história que derramou o sangue de inúmeros estudantes. É preciso a todo instante evidenciar o quanto continua sendo árduo o processo de redemocratização, num país cujas feridas encontra-se ainda abertas e mal resolvidas.

Em síntese, quero dizer que o espaço universitário é composto por seus ritos, símbolos, tradições, e história, que de alguma forma fogem da engessada legalidade, da moral hipócrita e da compreensão das forças de segurança formadas e modernizadas para reprimir. 

A USP X Autonomia

É bem conhecida a história da Universidade de São Paulo. Conceituada internacionalmente, a mesma deve suas origens a um estreito vínculo com a elite paulista.

Verdade que se tornou berço de eminentes homens públicos e intelectuais, porém sempre esteve a favor de um projeto político.

Ainda hoje ela é uma universidade ligada ao governo de São Paulo, financeiramente, administrativamente e politicamente.

“Ainda durante a gestão de José Serra, Grandino Rodas foi escolhido reitor da USP através de um decreto publicado no dia 13 de novembro de 2009. Seu nome era o segundo colocado numa lista de três indicações. Ou seja, Roda não foi eleito pela comunidade acadêmica. A última vez que o governador do Estado impôs um reitor à Universidade – utilizando-se de um dispositivo legal criado no período militar e que está presente na legislação do Estado de São Paulo até hoje – foi durante a gestão do governador biônico Paulo Maluf, que indicou Miguel Reale para assumir a reitoria da USP ente 1969 e 1973”. (3)

Seria de estranhar, se a Universidade de São Paulo não refletisse a opinião, o entendimento e a prática do governo paulista de Geraldo Alckmin frente aos movimentos sociais. Foi assim com na greve dos próprios policiais, dos professores, entre outras. É um governo que não viabiliza o diálogo com os movimentos sociais tradicionais, que nunca suportou qualquer sinal de organização política – seja estudantil, sindical ou partidária – muito menos teria uma atitude diferente com movimentos emergentes, portadores de dinâmicas ainda pouco compreensivas até o presente momento.

O resultado?

Sinto, particularmente, um triste pesar com tudo que o ocorreu e a forma que o tema vem sendo tratado pelo senso comum e a imprensa nacional.

Permaneço veemente contrário a legalização da maconha e qualquer outro ilícito. Porém compartilho do entendimento crítico que a descriminalização do usuário, traria implicações importantes no âmbito da segurança pública, da saúde e justiça.

A todo instante quis refletir acerca de um fato concreto. O fato de que 3 mil estudantes da USP, mobilizados em assembléia, deflagraram uma greve que expressa o sentimento dos estudantes depois da entrada da Tropa de Choque. 3 mil estudantes, que a todo instante recebe o apoio de trabalhadores, intelectuais, outras universidades e setores da sociedade.

Não sei se por conta da minha história no movimento estudantil, mesmo apontando críticas e divergências que sempre tive com determinados setores que compõe o mesmo, mantenho aqui meu incondicional apoio ao movimento rebelde na USP.

Involuntariamente, momentos como esses, servem para trazer a tona uma série de anseios da juventude brasileira.

Ou juntos mudamos o mundo, ou a juventude vai mudar ele sozinho!

*Eduardo Soares de Lara é graduando em ciências sociais pela Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC


Observação:

A histórica assembléia deliberou os seguintes encaminhamentos:
- Greve imediata
-Eixos;
1 – Retirada de todos os processos movidos contra estudantes por motivos políticos!
2 – Fora PM! Pelo fim do convênio da USP com a Secretaria de Segurança Pública.
3 – Liberdade aos presos e nenhuma punição administrativa ou criminal!
4 – Foras Rodas!
5 – Outro projeto de segurança na USP! Que a reitoria se responsabilize por:
a)      Plano de iluminação no campus.
b)      Política preventiva de segurança.
c)       Abertura do campus à população para que tenhamos maior circulação de pessoas;
d)      Abertura de concurso público para outra guarda universitária, que tenha treinamento para prevenção dos problemas de segurança e com efetivo feminino para a segurança da mulher;
e)      Mais circulares;
f)       Circular até o Metrô Butantã;


Referências:
1 – Octavio Ianni. Capitalismo, Violência e Terrorismo. Editora Civilização Brasileira, 2004.
2 – José Reinaldo Carvalho. 7 de novembro, aniversário da Revolução Socialista. <http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=168065&id_secao=9>
3 – Ana Paula Salviatti. A face autoritária do reitor da USP <http://rede.outraspalavras.net/pontodecultura/2011/11/07/a-face-autoritaria-do-reitor-da-usp/>


quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Desertar... nunca!

Quase que esqueço por completo desse pequeno espaço de idéias, mantido unicamente dos sonhos e sentimentos da minha juventude.

O princípio desse espaço foi somar forças com a rede de anônimos que compartilham suas experiências, idéias e sentimentos.

Tal espaço, só faz sentido, se puder expor o verdadeiro sentimento aprisionado no meu peito.

Posso encontrar inúmeros motivos para justificar essa ausência. Porém hoje, não quero justificar nada publicamente. Apenas quero relembrar uma frase de Sartre que merece ocupar as paredes brancas do meu quarto, e quem sabe assim, a cada despertar, alimentar a coragem adormecida dentro de mim.    

“Desertar é negar um mundo e uma época – lutar nas trincheiras é aceitar esta época, suportar seu tempo. O desertor faz apelo ao futuro; por minha parte, quero fazer apelo unicamente ao presente.”

Além disso, quero compartilhar a linda voz portuguesa de Cuca Roseta, interpretando a canção “Quem és tu afinal?”

A canção não saiu da minha cabeça durante os últimos dois dias...

Seus olhos Branco e Cal
Rascunho ou Pintura?
Quem és tu? Afinal?
Destino..? ventura..
De mãos em vão nudez
mm..Deslizar nos dedos
Enleio em timidez
mm..Desposar segredos
Seus olhos verde e cal
Desenho.Tortura!
Quem és tu? Afinal?
Receios! ..mm Ternura..
Baixinho a cada noite
De novo e devagar
És meu ao abraçar-te
Tão meu!...Sonhar!!



domingo, 3 de julho de 2011

O SEGREDO DOS SEUS OLHOS (El Secreto de Sus Ojos, 2009)

O SEGREDO DOS SEUS OLHOS (El Secreto de Sus Ojos, 2009)

Indicado ao o Oscar de melhor produção estrangeira, o filme conta a história de um ex-funcionário público que resolver escrever um livro quando se aposenta. Benjamín Espósito (Ricardo Darín) escolhe pra seu livro o caso criminal que mais marcou a sua carreira no Tribunal Penas de Buenos Aires.

Para ordenar as idéias, ele revê o homicídio que investigou em 1974 e termina repensando as decisões feitas no passado. Nessa busca vai tentar descobrir se consegue encerrar esse caso e alguns capítulos da sua vida.

Espósito terá sempre ao lado a tentação da sua impecável superior Irene Menéndez Hastings (Soledad Villamil, atriz revelação do filme) e a companhia do fiel escudeiro Pablo Sandoval (Guillermo Francella, que garante uma participação dramática de peso, algo fora do comum na sua carreira de comediante). Os acontecimentos, assim como os outros personagens que povoarão a história, são apresentados aos poucos, como se saíssem de um conta-gotas controlado com extrema precisão pelo diretor Juan José Campanella.

Apesar de poder ser enquadrado como filme policial, afinal o elemento central à trama é um crime, há poucos tiros e nenhuma explosão. A tradicional adrenalina das perseguições de carro que se acostumou em ver nos filmes hollywoodianos é muito bem substituída por uma bela seqüência de imagens aéreas de um estádio de futebol lotado em pleno fervor do jogo. Ou seja, tudo redimensionado a escalas mais humanas e realistas.
As idas, vindas e voltas de cortes temporais fazem os paralelos com o passado dos envolvidos e também com a história argentina. Os meandros da justiça e a época da última ditadura no país são tratados de forma econômica e sem demagogia. Mas, por outro lado, às vezes, fica difícil de entender tanta "argentinidade". São várias as referências feitas a ruas, lugares, personalidades e contexto histórico. Um dado importante para acompanhar melhor alguns desenlaces do filme: o crime se passa na época do governo de Isabel Perón e das ações constantes da "Triple A" (Aliança Anticomunista Argentina), grupo de repressão do Estado que recrutou gente da pior espécie, entre oficiais de polícia exonerados por delitos, civis com fichas criminais e matadores de aluguel.
Baseada no livro La pregunta de sus ojos (A pergunta dos seus olhos), de Eduardo Sacheri, a produção argentina e espanhola é um desses poucos casos em que uma obra é superada pela adaptação. Apesar de não ser desconhecido dos leitores argentinos, o romance de Sacheri (que trabalhou com Campanella no roteiro, acompanhou as filmagens e palpitou em certos momentos) com certeza nunca chegou a 18 semanas consecutivas no topo de nenhum ranking, como fez o filme nas bilheterias argentinas. Na sua sexta semana de exibição, O Segredo dos Seus Olhos já era o filme nacional de maior arrecadação na Argentina e hoje é considerado o mais visto dos últimos 35 anos no país.

O orçamento curto (2 milhões de euros) foi bem distribuído entre as sete semanas de filmagens, os atores de primeira e os cenários simples, mas impactantes - como o edifício central dos tribunais e as cafeterias da capital argentina, que não precisam de retoques, além do já mencionado estádio de futebol do time Huracán. A bela fotografia também merece destaque e o enquadramento só peca pela repetição muito constante dos desfoques de primeiro plano. Parece que a verba só não deu conta de um quesito: a maquiagem. Ao longo dos 25 anos que se passam na história, as marcas do tempo ficam meio forçadas.
O desenrolar dos acontecimentos cria um suspense envolvente e o desdobramento dos personagens contribui com boas surpresas, compondo alguns dos segredos que hipnotiza os olhos de quem vê. Em suma, a indicação ao Oscar é merecida. Agora resta saber como acaba a tal história contada por Darín.






AMOR E ÓDIO (La Rafle)

O final de semestre é sempre um momento delicado, que exige uma dedicação sobrenatural na tentativa de entregar nos prazos estabelecidos, alguns trabalhos e avaliações.

Mesmo assim encontrei um pouco de tempo para o cinema. Segue minhas considerações para com três títulos.

AMOR E ÓDIO (La Rafle)

Com o ator Jean Reno, o filme fala sobre o período de ocupação da França por Hitler, e consequentemente sobre a perseguição de judeus em Paris. Os atores são ofuscados por uma série de crianças que protagonizam “pequeninos judeus”, passando por uma das experiências mais deploráveis que a humanidade já conseguiu produzir, a perseguição nazista.

Ambientando no ano de 1942, Joseph com apenas 11 anos, durante uma manhã de junho, deve ir para a escola com uma estrela amarela presa em seu peito. Entre a bondade e o desprezo, a comunidade judaica vivem numa Paris ocupada.

Na manhã de 16 de Julho de 1942, 13.000 Judeus são presos e espremidos dentro do Velódromo D´Hiver em condições desumanas, até serem deslocados para o campo de concentração de Beaune-la-Rolande, localizado na cidade francesa ao sul de Paris, Vichy.

O fato de ser um filme, não impossibilita o fato de que cada personagem desse filme de fato existiu. Foram mulheres, homens e crianças que lutaram por sua liberdade. O filme é aterrorizador, quando ao final nos damos conta que tudo isso aconteceu, existiu e foi encarado com naturalidade por muitos.

Vale apena ver e ter como registro de um dos momentos mais perversos que a humanidade conseguiu criar. Ou melhor... Continua recriando, em outras proporções, porém continua.



quinta-feira, 2 de junho de 2011

Palocci. Ele é a verdadeira crise?

Ontem fui pego de surpresa, nos corredores da Universidade, onde um grupo de colegas debatia questões relacionadas à influência da grande mídia e as recentes acusações que envolvem o Ministro Chefe da Casa Civil, Antonio Palocci.

Longe de querer defender o Ministro Palocci, seu passado e presente, assim como querer justificar alguma ação imoral. Tenho a necessidade de refletir alguns aspectos.

Divulgado pela Folha de S. Paulo, as notícias acusam o ministro de ter seu patrimônio acrescido 20 vezes em quatro anos. Mesmo não fazendo nenhuma acusação direta, a mesma é cheia de insinuações. Seguindo o melhor estilo golpista da imprensa brasileira, outros meios de comunicação somaram-se ao coro, como se todas as reportagens tivessem sido preparadas pelo mesmo editor.

Terça-feira, 17 de maio
Folha: “Comissão de Ética diz que Palocci não relatou bens”
Estadão: “Dilma blinda Palocci e oposição reage com cautela”
Quarta-feira, 18 de maio
Folha: “Ex-ministro vale muito no mercado, diz Palocci”
Estadão: “Cinco ministros de Dilma têm empresas de consultoria”
Quinta-feira, 19 de maio
Folha: “Ação do Planalto barra convocação de Palocci”
Estadão: “Negócio feito por empresa de Palocci é suspeito, diz Coaf”
Sexta-feira, 20 de maio
Folha: “Empresa de Palocci faturou R$ 20 mi no ano da eleição”
Estadão: “Palocci trabalhou para 20 empresas”

Jornais e oposição ao governo aproveitaram-se do caso para criar todo tipo de instabilidade e constrangimento à presidenta Dilma. Criou-se o estopim para que lideranças da oposição passassem a pôr Palocci no “olho do furação”, começando assim mais uma guerra política.

DEM e PPS ingressaram com pedidos de abertura de inquérito na Procuradoria-Geral da República, questionando o faturamento da empresa em seu período de funcionamento, assim como a lista de seus clientes.

Parlamentares do PSDB mobilizaram forças para recolher assinaturas para uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI).

Em diferentes comissões das duas casas do Congresso Nacional, oposicionistas buscaram convocar o Ministro para prestar informações sobre a atuação da consultoria da qual é sócio.

*

Segue trecho de uma reflexão publicada pelo professor Emir Sader, em seu blog:

“As acusações a Palocci coincidiram com essa votação e contribuíram para configurar uma situação de crise política para o governo. Ao deter o cargo mais importante no ministério, centralizando a coordenação política e outras funções anexas, as acusações - no mínimo – afetam duramente a capacidade de coordenação do governo e colocam à prova sua forma de reagir a denúncias – mais além dos objetivos desestabilizadores da mídia opositora – que revelam, pelo menos, comportamentos problemáticos por parte de um ministro importante no governo. Ainda que não se prove ilegalidades, restam sempre questionamentos sobre a ética publica de assessorias enquanto se detêm mandato parlamentar, cargo importante em comissão da Câmara e a eventualidade de informações privilegiadas e influências em setores do governo. A não revelação dos clientes, com a alegação de segredos profissionais, agrava a situação, que no seu conjunto paralisa a capacidade de ação politica do governo, justamente quando ele acumula temas graves na sua agenda – Código Florestal, emissão de MPs, entre outros. Porém, mais grave do que tudo isso, reflete que atitude o governo toma diante de situações que envolvem ética pública e podem definir critérios para todo o mandato.

“A falta de consciência dos problemas acumulados e dos elementos de fraqueza do governo, que permitiram sua irrupção, ou a falta de consciência, com visões redutivas, que não atingem o cerne das questões, é o pior conselheiro. Qualquer atitude que represente esconder a cabeça na areia, como o camelo, é permitir que as dificuldades atuais se perpetuem e os recuos que o governo está dando, permaneçam no tempo, configurando uma correlação de forças desfavorável para governo e o campo popular.”

"O governo Dilma não sairá o mesmo da crise. Ou sairá mais fraco ou mais fortalecido. Como ocorreu em 2005, que foi o marco decisivo no governo Lula. A atitude que o governo tomar diante da crise atual – seja no Código, seja em relação a Palocci – vai definir um estilo de governo, uma forma de encarar os interesses públicos e a forma de enfrentar problemas da ordem da ética pública, que o marcará por todo o mandato.”

“Nunca como agora crise significa oportunidade. Será perdida ou ganha: está nas mãos do governo a decisão.

*

Na mesma semana que os fatos relacionados a Palocci continuam repercutindo, denúncias envolvendo o “líder máximo da oposição ao governo Dilma”, senador do PSDB Aécio Neves, aquele que foi pego “borracho” andando de carro por ai. Aécio é acusado por deputados estaduais de Minas Gerais de esconder bens para não pagar Imposto de Renda. Salário de R$ 10 mil e patrimônio declarado de R$ 600 mil não explicam viagens ao exterior, festas com celebridades, jantares em restaurantes caros e uso de carrões.

A grande questão: é preciso deixar claro o que pode ou não ser feito pelo homem público. Essa é a verdadeira crise. O Brasil, com o governo Lula, deixou de ser um país das oportunidades. Precisamos mobilizar as forças conseqüentes da sociedade para disputar a construção de um Estado eficiente ao mesmo tempo culturalmente mais ético com as grandes questões públicas.